quarta-feira, 9 de janeiro de 1974
Fui arrastado a este
cantinho de mundo, Joanópolis, pela pura curiosidade de descobrir a verdade sobre
o burburinho local envolvendo mutilação animal e encontros indesejados com “um
bicho peludo”. Foi assim que o descreveram.
Era quarta-feira, acho
que lá pelas seis da manhã, quando comecei a entrevistar toda a gente sobre os
causos de avistamento. Muita coisa foi claramente inventada, muitos não quiseram cooperar, e o
grande resto ou riu de mim, ou simplesmente era descrente. Não consegui tirar
nada de proveitoso, exceto que era consenso entre os supersticiosos ser culpa de
lobisomem.
Eu subi à beira de um
dos morros, onde ouvi que havia morrido gado recentemente. Ou para ser mais exato, onde havia alguma
coisa morta e espalhada. Não dava para dizer que aquelas coisas já foram vacas um dia! O dono estava num misto de fúria e medo. Não consegui convencê-lo a me
ajudar a capturar o monstro. Na verdade, não consegui convencer ninguém. Porém,
não há nada que não se compre com um punhado de cruzeiros!
Com alguns atiradores
não muito motivados, devo acrescentar, só foi preciso comprar uma vara de
porcos bem barulhentos e encontrar a área ideal para montar a armadilha. O
bichão tinha fama de voltar muitas vezes seguidas para um mesmo lugar, então
porque não deixar tudo preparado próximo a última chacina dele?!
As lendas dizem que
para matar um lobisomem é preciso uma bala de prata no coração, mas conforme experiencias
pessoais, não com lobisomens, mas com balas de prata, descobri que é inviável!
Existe motivo para os projéteis serem de chumbo. Os de prata não vão para o ponto
projetado, e desaceleram no processo, além de serem muito complicados de se
confeccionar. Por isso, torci para que balas convencionais funcionassem.
Foi uma espera
entediante, mas quando a lua cheia atingiu seu ápice, saiu do mato um cheiro
insuportável de carniça. Um dos armados que já tinha visto o bicho uma vez, nos
avisou que era o cheiro do lobisomem. A primeira coisa que vi dele foi os olhos que pareciam
tochas de fogo, enquanto o resto do corpo se fundia ao ambiente escuro. Não
gosto de admitir, mas gelei por inteiro! E não foi só eu!
Aquela confusão difusa
e sombria parecia crescer quanto mais se aproximava! Mas a poucos metros dos
porcos desesperados, o espectro demoníaco cruzou os raios de luar, desfazendo toda a aura anterior e revelando cruamente um cachorrão negro, desgrenhado, com os olhos de um dragão!
Atirei primeiro e
errei, mas na saraivada que se seguiu, uma das patas do bicho foi machucada.
Ele guinou como um porco e se embrenhou no mato. Vejo agora que fui precipitado!
Mas não adianta lamentar! Um dia é da caça, e outro do caçador!
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