sexta-feira, 8 de fevereiro de 1974
Meu pai por vezes dizia que por nós nascermos e vivermos no ofício do oculto, desenvolvemos uma intuição especial. Foi isso o que fez eu parar no trevo de Calixto Almeida, em Capão Bonito! Uma impressão de que haveria trabalho.
Fingindo ser agente sanitário, conversei com alguns moradores próximos. Eles me informaram, mesmo com minhas perguntas não condizendo com o ramo de saúde pública, que mais a frente havia uma casa “pestilenta”, e cheia de azar. Foram também intitulados de forma pejorativa como tuberculosos.
Por cuidado usei máscara, e visitei os infortunados, dessa vez me passando por vendedor de medicamentos alternativos, porque isso possui um certo apelo para quem está no fundo do poço. Me sinto mal, mas se aproveitar dessa debilidade é a maneira mais eficaz de ser convidado.
Eu conheci a garota no seu quarto como num caixão, pois não entrava luz ou ar. A pobre jovem era pálida, e muito magra. Me senti na obrigação de socorrê-la. Sequer consigo imaginar os sentimentos de uma mãe vendo sua criança definhando numa cama!
[Transcrição da conversa gravada entre meu vô João, e a mãe da menina]
[João] – O que ela tem?
[... pequena pausa ...]
[João] – Eu sei que pode ser difícil falar sobre isso, mas tenha fé. Se for o que eu to pensando, eu poço ajudar!
[Mãe] – É tuberculose!
[João] – Você também tem, ou é só ela?
[Mãe] – Eu não. Por que tá gravando?
[João] – Só pra não esquecer depois!
[Mãe] – Achei que você fosse me vender um remédio.
[João] – Eu vou. Mas por agora, não acha estranho que uma doença tão contagiosa, afete só ela? Quer dizer, tuberculose pode ser assintomática, mas ainda assim, um teste de sangue denunciaria, se você tivesse. Tem certeza que não tem?
[Mãe] – Eu vou ser sincera. Isso me incomoda! Você podia...
[João falou por cima] – Ela viu algum parente falecido?
[... pausa longa ...]
[João] – Não precisa ter medo. Só me diga o nome, e onde foi enterrado!
[Mãe] – Quem é você? Quem te contou essas coisas?!
[Áudio encerrado]
Infelizmente, meus esforços foram inúteis. Devido a natureza suspeita dos questionamentos, ela se recusou a cooperar. Embora ela não tenha sido rude, percebi que não era bem aceito. Então busquei por certidões de óbito recentes com o sobrenome da família. Depois confirmei na paróquia qual o falecido condizente e onde fora enterrado.
Era um típico caso de vampiro.
Abrir um túmulo de vampiro a noite costuma ser perigoso, porque é o horário em que o vampiro se torna ativo, mas fazer o mesmo durante o dia é se expor profanando um tumulo! Se eu fosse pego, não poderia concluir o serviço!
Com a marreta, eu derrubei a tumba, atento ao arredor. Quando eu terminei, abri o caixão, e o que eu vi me arrepiou. Lá estava um rosto corado me fitando nos olhos. Tirei a estaca de minha mochila, mas antes que eu pudesse usar, a coisa sumiu.
Logo atinei que deveria estar indo se alimentar, portanto, eu aproveitei para encharcar o caixão com gasolina e esperar. Não demorou. Eu comecei a chamar por ele, ao que ele respondeu chorando, lamentos longos e doloridos. Eu gritei: – Morrer é doloroso, não é?! Beber sangue não resolve! Não se cura a morte! Me deixa te salvar!
Com um empurrão, fui jogado no chão, mas não havia nenhum agressor. Tinha sido uma força invisível! Eu continuei;
– Não fique com medo do que vem depois!
O espectro apareceu na minha frente. Eu ergui a água benta, e o pressionei a voltar para o caixão. Lembrei-me das orações que minha avó havia ensinado, recitando em voz alta, recordando o quanto eu gostava de ouvir ela orar!
Ordenei ao vampiro que recuasse. Ele me obedeceu olhando triste, andando de costas com perfeição. A criatura deitou-se em seu leito e fechou os olhos. Eu pude ouvir o vampiro rezando baixinho!
Risquei o fósforo e pus fim a aquela alma perdida. Espero que ela se ache.
Nenhum comentário:
Postar um comentário